Quais foram os primeiros blocos de rua do Carnaval do Brasil?
Imagine um Carnaval sem trios elétricos, sem marchinhas, sem fantasias elaboradas e sem organização. Em vez disso, pessoas nas ruas jogando água, farinha, frutas estragadas e até lama umas nas outras. Parece exagero, mas essa era a realidade das primeiras festas que deram origem ao Carnaval brasileiro.
A pergunta que muitos fazem nesta época do ano parece simples: qual foi o primeiro bloco de Carnaval do Brasil? Mas a resposta está longe de ser direta. Na verdade, ela revela uma história complexa, cheia de transformações culturais, influências estrangeiras e diferentes formas de celebrar a folia ao longo dos séculos.
Para entender o nascimento dos blocos, é preciso voltar no tempo, muito antes de existirem os desfiles que hoje tomam as ruas de todo o país.

O que existia antes dos blocos?
O Carnaval brasileiro tem suas raízes no Entrudo, uma tradição portuguesa trazida durante o período colonial. O primeiro registro dessa prática no Brasil aparece ainda no século 16, em Pernambuco.
O Entrudo acontecia de duas formas. O chamado Entrudo popular era uma festa de rua sem regras, marcada por brincadeiras agressivas e muita confusão. Já o Entrudo familiar acontecia dentro das casas e tinha um caráter mais social, reunindo famílias e convidados.
Segundo pesquisadores, a versão popular podia incluir arremessos de água suja, farinha, restos de comida e outros materiais. Era uma celebração espontânea, mas também considerada violenta e desorganizada.
O Carnaval brasileiro nasceu da mistura entre festas populares caóticas e eventos elitizados, criando uma das manifestações culturais mais diversas do mundo.
Quando o Carnaval começou a tomar forma?
No século 19, o Brasil recebeu novas influências culturais vindas da França. A chamada Missão Francesa trouxe costumes da elite europeia, como os bailes de máscaras, realizados em salões fechados e com regras rígidas.
Foi nesse período que duas tradições começaram a se misturar: a festa popular das ruas e os eventos organizados da elite.
A partir de meados de 1850, surgiram as chamadas sociedades e missões carnavalescas. Esses grupos se reuniam em locais específicos e depois saíam em cortejo pelas ruas, muitas vezes seguindo até bailes famosos.
Inicialmente, eram organizados por jovens de famílias ricas. Mas não demorou para que as camadas populares criassem suas próprias versões, formando grupos que também desfilavam pelas cidades.

Por que é difícil apontar o primeiro bloco?
O grande desafio está no próprio significado da palavra bloco. Durante décadas, os grupos carnavalescos receberam diferentes nomes, como:
Clubes
Cordões
Ranchos
Sociedades
Blocos
Até o início do século 20, essas denominações eram usadas de forma aleatória. Ou seja, um grupo que hoje seria considerado um bloco podia ser chamado de cordão ou rancho na época.
Além disso, o termo bloco só se popularizou a partir de 1906, o que torna ainda mais difícil determinar qual foi realmente o primeiro.
A pergunta não é apenas qual foi o primeiro bloco, mas o que realmente define um bloco de Carnaval.
Os principais candidatos ao primeiro bloco do Brasil
Mesmo sem uma resposta definitiva, alguns grupos históricos são frequentemente citados como pioneiros.
Entre eles, destacam-se:
1855: Congresso das Sumidades Carnavalescas
Uma das primeiras sociedades organizadas para desfiles, com participação do escritor José de Alencar.
1906: Bloco dos Trepadores do Engenho
Apontado por alguns historiadores como o primeiro bloco de rua do Rio de Janeiro.
1914: Grupo Carnavalesco Barra Funda
Considerado o primeiro bloco organizado de São Paulo. Mais tarde, deu origem à escola de samba Camisa Verde e Branco.
1918: Cordão da Bola Preta
Um dos blocos mais antigos em atividade no Rio e, para muitos, o mais tradicional do país.
Cada um deles representa um momento diferente da evolução do Carnaval, o que explica por que não existe consenso entre os especialistas.

Quando o Carnaval ganhou a cara que conhecemos?
No final do século 19 e início do século 20, a música começou a ganhar protagonismo. Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs a famosa marcha “Abre Alas”, considerada um marco das marchinhas carnavalescas.
Pouco depois, em 1917, o samba entrou definitivamente na festa com a música “Pelo Telefone”, de Donga. A partir da década de 1960, o ritmo se tornou o principal som do Carnaval.
Outras regiões também contribuíram para a diversidade cultural da festa. Na Bahia, surgiram os afoxés e, mais tarde, o trio elétrico. Em Pernambuco, o frevo tomou conta das ruas. Em Olinda, o maracatu se consolidou como símbolo da tradição local.
O Carnaval que conhecemos hoje é resultado dessa mistura de influências africanas, europeias e brasileiras, construída ao longo de mais de um século.
Então, qual foi o primeiro bloco?
A resposta mais honesta é: provavelmente nunca saberemos com certeza.
O Carnaval brasileiro nasceu de forma espontânea, sem registros precisos e com diferentes formatos surgindo ao mesmo tempo em várias cidades.
Mais importante do que identificar um único pioneiro é entender que os blocos são resultado de um processo coletivo, popular e cultural que transformou uma festa caótica em um dos maiores espetáculos do planeta.
Hoje, milhões de pessoas participam dos blocos de rua todos os anos. E, de certa forma, cada novo bloco que surge continua escrevendo essa história.
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