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Aparecida,14/02/2026

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Junior Vilela

Justiça que vê demais: quando a venda cai e o poder pesa mais que a lei

E um país sem confiança na Justiça caminha para o conflito permanente.

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Justiça que vê demais: quando a venda cai e o poder pesa mais que a lei

A estátua da Justiça em frente ao Supremo Tribunal Federal foi concebida para representar imparcialidade. Vendada, sentada, com a espada repousada, ela simboliza a ideia de que a lei não distingue pessoas pelo nome, pela conta bancária ou pelo cargo que ocupam. Julga fatos, normas e princípios. Esse é o ideal.

Mas símbolos também servem para provocar. E hoje, para uma parcela crescente da sociedade brasileira, a estátua parece desatualizada. A venda já não cobre os olhos. No lugar dela, muitos enxergam um olhar atento demais para quem tem poder e dinheiro, e rigoroso demais para quem só tem necessidade.

É a partir dessa tensão entre símbolo e prática que nasce a crítica.

Quando a Justiça enxerga quem está diante dela

No Brasil real, a Justiça não opera em terreno neutro. Ela funciona dentro de um país profundamente desigual, com acesso desigual à defesa, à informação e ao tempo processual. Isso, por si só, já cria distorções. O problema começa quando essas distorções deixam de ser exceção e passam a parecer regra.

De um lado, pessoas presas por furtos de pequeno valor. Casos amplamente noticiados de cidadãos que subtraíram alimentos, itens básicos ou quantias irrisórias e acabaram encarcerados, muitas vezes preventivamente, aguardando julgamento em condições precárias. Crimes sem violência, motivados por fome ou desespero, tratados com o peso máximo do sistema penal.

Do outro, escândalos financeiros bilionários. Fraudes complexas, desvios de recursos públicos e privados, esquemas sofisticados que exigem estrutura, planejamento e articulação. Crimes que causam danos coletivos, quebram empresas, afetam aposentadorias, fundos públicos e a confiança no sistema financeiro. Ainda assim, seus protagonistas frequentemente permanecem soltos, recorrendo, negociando, protelando.

A pergunta que ecoa não é jurídica. É moral e institucional: por que o rigor parece tão diferente?

O caso Banco Master e o imaginário coletivo

O escândalo envolvendo o Banco Master se tornou um catalisador dessa percepção. Independentemente do desfecho jurídico, o caso ganhou enorme repercussão pública pelo volume de recursos envolvidos, pelas suspeitas de gestão fraudulenta e pelas conexões políticas e institucionais que vieram à tona nas reportagens.

Fala-se em cifras bilionárias. Fala-se em prejuízos relevantes. Fala-se em investigações complexas que avançam lentamente, cercadas de sigilo, recursos e disputas técnicas. Nada disso é, por si só, ilegal. O problema é o contraste.

Enquanto isso, o sistema penal segue funcionando com eficiência quase imediata quando o réu não tem advogado caro, não domina o vocabulário jurídico e não possui capital político. A engrenagem gira rápido quando o alvo é frágil.

Essa assimetria alimenta uma sensação corrosiva: a de que existe uma Justiça para alguns e outra para outros.

A seletividade não está só na sentença

É importante dizer: desigualdade judicial não se manifesta apenas na condenação final. Ela aparece muito antes.

Aparece na prisão preventiva aplicada com facilidade a uns e evitada a outros. Aparece no tempo do processo, que pode ser devastador para quem não pode esperar. Aparece no acesso a acordos, medidas cautelares alternativas, habeas corpus, revisões e instâncias superiores.

A lei é a mesma no papel. A experiência da lei é completamente diferente na prática.

STF, percepção pública e desgaste institucional

O Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição singular. Ele não é apenas um tribunal. É o guardião da Constituição. Suas decisões moldam o país. Por isso mesmo, sua imagem pública importa.

Quando surgem notícias sobre relações sociais, profissionais ou institucionais entre ministros, escritórios de advocacia, grandes grupos econômicos ou personagens centrais de escândalos financeiros, mesmo que não haja ilegalidade comprovada, o dano simbólico já está feito. A Justiça não pode apenas ser imparcial. Ela precisa parecer imparcial.

A confiança institucional não se sustenta apenas em votos técnicos. Ela se sustenta na percepção de que todos estão sujeitos ao mesmo rigor.

A crítica não é contra a Justiça, é a favor dela

É preciso deixar isso claro. Questionar o funcionamento do sistema judicial não é atacar a democracia. É exercer cidadania.

Uma Justiça que não admite crítica se afasta do povo. Uma Justiça que se fecha em tecnicismos enquanto ignora a realidade social perde legitimidade. E legitimidade é o maior patrimônio de qualquer tribunal constitucional.

Quando cidadãos comparam a prisão de quem furtou comida com a liberdade de quem é acusado de desviar milhões, não estão fazendo um debate jurídico refinado. Estão expressando uma percepção básica de injustiça.

Ignorar isso é um erro estratégico.

A estátua reinterpretada

Por isso, a releitura simbólica da estátua da Justiça faz sentido. Tirar a venda e colocar olhos no lugar não é um ataque gratuito. É uma metáfora.

Olhos que enxergam status. Olhos que reconhecem sobrenomes. Olhos que distinguem poder econômico.

Substituir a espada por uma caderneta e uma caneta também é simbólico. Não é mais a força que decide. É a negociação, a anotação seletiva, a escolha do que registrar e do que ignorar.

Essa imagem não afirma crimes. Ela denuncia percepções. E percepções, quando se tornam coletivas, precisam ser enfrentadas.

O risco de normalizar o duplo padrão

O maior perigo não é um caso isolado. É a normalização do duplo padrão.

Quando a sociedade passa a aceitar que pequenos delitos geram punição exemplar e grandes crimes geram processos intermináveis, algo se rompe. A lei deixa de ser referência moral. Passa a ser apenas um instrumento de controle social.

E quando isso acontece, a confiança evapora.

A Justiça brasileira não precisa ser perfeita. Precisa ser coerente.

O símbolo da venda nos olhos existe para lembrar que ninguém deve ser visto além do fato e da lei. Quando a prática parece contrariar esse princípio, o símbolo se transforma em cobrança.

A crítica aqui não é ideológica, nem pessoal. É institucional. É o alerta de que, sem igualdade real na aplicação da lei, todo o edifício democrático fica instável.

A Justiça que vê demais corre o risco de deixar de ser Justiça.

E um país sem confiança na Justiça caminha para o conflito permanente.

Reinterpretar símbolos é, às vezes, a única forma de lembrar às instituições aquilo que elas juraram



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