Polilaminina: entenda por que o Brasil perdeu a patente
Imagine dedicar décadas a uma descoberta científica capaz de mudar a vida de milhares de pessoas. Agora imagine ver essa inovação nascer no país, mostrar resultados promissores… e ainda assim não conseguir protegê-la internacionalmente por falta de recursos.
Essa é a história da polilaminina, uma tecnologia desenvolvida no Brasil que surge como esperança para o tratamento de lesões na medula espinhal. Apesar do potencial científico, o país perdeu o registro internacional da patente após cortes de verba que impediram a continuidade do processo.
O caso reacendeu um debate importante: o Brasil produz ciência de alto nível, mas até que ponto consegue sustentar suas próprias descobertas?

O que é a polilaminina e por que ela chama atenção?
A polilaminina é uma versão modificada da laminina, uma proteína produzida naturalmente pelo corpo humano. No organismo, a laminina tem papel essencial na organização dos tecidos e no crescimento celular, especialmente no sistema nervoso.
Os pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiram transformar essa proteína em uma estrutura mais estável e funcional. Em laboratório e em modelos experimentais, a substância mostrou capacidade de estimular o crescimento de axônios, as estruturas dos neurônios que são rompidas em lesões medulares.
Na prática, isso significa a possibilidade de ajudar na recuperação de movimentos em pacientes com paraplegia ou tetraplegia, condições que hoje têm opções de tratamento bastante limitadas.
Os primeiros resultados clínicos ainda são preliminares, mas considerados promissores. A Anvisa já autorizou o início da fase 1 de testes, etapa que avalia a segurança da aplicação em humanos.
A polilaminina ainda está em estudo, mas representa uma das maiores esperanças brasileiras na área de regeneração neurológica.

Como o Brasil perdeu a patente internacional?
Apesar do avanço científico, a proteção internacional da tecnologia não foi mantida. Segundo a pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo projeto, a interrupção ocorreu por falta de recursos financeiros.
Nos anos de 2015 e 2016, universidades brasileiras enfrentaram cortes orçamentários significativos. O registro internacional de patentes exige taxas elevadas e manutenção periódica, custos que o projeto não conseguiu cobrir naquele momento.
Sem o pagamento das etapas necessárias, o Brasil perdeu a proteção global sobre a tecnologia.
Isso não significa que a pesquisa parou ou que a substância deixou de existir. Mas a ausência da patente internacional reduz o controle estratégico do país sobre o uso comercial da descoberta no exterior.
O que essa perda significa na prática?
A perda da patente não impede que a polilaminina seja desenvolvida no Brasil ou eventualmente aprovada como tratamento. O impacto está principalmente na soberania tecnológica e no potencial econômico.
Sem proteção internacional, outras empresas ou instituições podem explorar caminhos semelhantes fora do país, reduzindo a vantagem competitiva brasileira em uma área de alto valor científico e comercial.
Mais do que um problema isolado, o caso expõe um desafio estrutural: transformar pesquisa em inovação protegida exige investimento contínuo, inclusive em etapas administrativas que muitas vezes passam despercebidas pelo público.
Ciência não se sustenta apenas com boas ideias. Ela depende de financiamento constante para sobreviver fora do laboratório.
A ciência brasileira produz inovação?
O episódio também levanta uma reflexão importante. Ainda existe a percepção de que universidades brasileiras produzem pouca inovação. O caso da polilaminina mostra o contrário.
O Brasil possui centros de excelência reconhecidos internacionalmente. Instituições como a Embrapa, o ITA e empresas como a Embraer são exemplos de como investimento consistente em pesquisa pode gerar resultados estratégicos.
A polilaminina surge dentro dessa mesma tradição científica. O que faltou não foi conhecimento ou capacidade técnica, mas continuidade de financiamento em um momento crítico.
E o futuro da polilaminina?
Apesar da perda da patente internacional, o desenvolvimento da substância continua. Os testes clínicos estão em andamento e, se os resultados forem positivos, o tratamento ainda poderá chegar aos pacientes nos próximos anos.
O processo, porém, é longo. Após a fase 1, serão necessárias outras etapas para comprovar eficácia e segurança antes de qualquer aprovação definitiva.
Enquanto isso, o caso já cumpre um papel importante: mostrar que o Brasil é capaz de gerar ciência de ponta, mas que a inovação depende de um ecossistema completo, que inclui financiamento, gestão e políticas de longo prazo.
No fim das contas, a história da polilaminina não é apenas sobre uma proteína promissora. É sobre o que acontece quando conhecimento e investimento deixam de caminhar juntos.
E talvez a pergunta que fica seja simples e incômoda ao mesmo tempo: quantas outras descobertas o país pode estar perdendo pelo mesmo motivo?
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