Por que as IAs gastam tanta água? Entenda o impacto ambiental
Você envia uma mensagem para uma inteligência artificial, pede um texto, cria uma imagem ou até faz um meme. Tudo parece rápido, simples e invisível. Mas por trás de cada resposta existe uma estrutura gigantesca funcionando sem parar. E o que pouca gente imagina é que essa tecnologia, além de energia, também consome um recurso cada vez mais precioso: água.
À medida que a inteligência artificial se torna parte do dia a dia, cresce também uma discussão importante sobre seu impacto ambiental. Afinal, como exatamente a IA usa água? E por que isso tem preocupado especialistas ao redor do mundo?

O que existe por trás da inteligência artificial?
Sempre que você utiliza um sistema de IA, o processamento não acontece no seu celular ou computador. Ele ocorre em enormes instalações chamadas centros de dados. Esses locais abrigam milhares de servidores que trabalham continuamente para armazenar informações, treinar modelos e responder aos usuários.
Hoje, existem mais de 11 mil centros de dados espalhados pelo mundo. Os Estados Unidos concentram a maior parte deles, mas o Brasil já possui quase 200 em operação.
Essas estruturas funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. E isso gera um problema imediato: calor.
Equipamentos eletrônicos de alto desempenho aquecem rapidamente. Se a temperatura subir demais, os sistemas podem falhar ou até ser danificados. Por isso, manter os servidores resfriados é uma necessidade crítica.
E é exatamente aqui que entra o consumo de água.
Como a IA usa água na prática?
O uso de água pela inteligência artificial acontece de três formas principais:
Refrigeração dos centros de dados
Geração de eletricidade para alimentar os sistemas
Produção do hardware, como servidores e componentes eletrônicos
O maior consumo está na refrigeração. Em muitos casos, a água é utilizada em sistemas de resfriamento evaporativo, que retiram o calor dos equipamentos.
Um único centro de dados pode consumir cerca de 19 milhões de litros de água por dia apenas para manter a temperatura adequada. Isso equivale ao consumo diário de uma cidade com até 50 mil habitantes.
Um centro de dados pode usar tanta água quanto uma pequena cidade inteira.
Outro detalhe importante é que essa água precisa ser doce. A água do mar, por conter sais, acelera a corrosão dos equipamentos e reduz sua vida útil.
O problema é que apenas 3% da água do planeta é doce, e menos de 1% está realmente disponível para uso humano.

Cada uso de IA gasta água?
Essa é uma das perguntas mais debatidas atualmente. Pesquisadores da Universidade da Califórnia estimam que um comando com cerca de 100 palavras possa consumir o equivalente a uma garrafa de água, aproximadamente 500 ml.
Por outro lado, algumas empresas afirmam que o consumo direto por interação é muito menor. A diferença está no que é considerado no cálculo.
Alguns números levam em conta apenas a energia usada no momento da resposta. Outros incluem toda a infraestrutura necessária para manter o sistema funcionando, como construção, manutenção, resfriamento e operação dos centros de dados.
Quando toda essa cadeia é considerada, o impacto cresce significativamente.
O crescimento acelerado do consumo
Estudos indicam que, em 2024, os centros de dados consumiram cerca de 95 bilhões de litros de água. A projeção para 2028 é ainda mais impressionante: mais de 1 trilhão de litros, um aumento de cerca de 11 vezes.
Esse crescimento acompanha a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais em geral.
Além da água, o consumo de energia também preocupa. Em alguns países, centros de dados já representam uma parcela significativa da demanda elétrica.
Em resposta, algumas empresas de tecnologia estão investindo em fontes próprias de energia, incluindo energia solar, gás natural e outras alternativas.
Um problema que se agrava com o clima
Existe outro fator que torna a situação ainda mais delicada: a localização dos centros de dados.
Mais da metade das grandes instalações está em regiões que já enfrentam algum nível de estresse hídrico, como risco de seca ou redução na qualidade da água. Nos Estados Unidos, dois terços dos novos centros construídos nos últimos anos estão em áreas com algum grau de vulnerabilidade hídrica.
Estamos expandindo a infraestrutura digital justamente em regiões onde a água já é um recurso sensível.
Com o avanço das mudanças climáticas, esse cenário pode se tornar ainda mais desafiador.
A inteligência artificial é a vilã?
Apesar dos números chamarem atenção, especialistas alertam que o problema precisa ser analisado com equilíbrio. A inteligência artificial também pode ajudar na gestão de recursos, otimização energética e desenvolvimento de soluções ambientais.
Além disso, empresas do setor estão pesquisando formas de reduzir o consumo de água, como sistemas de resfriamento mais eficientes, reaproveitamento de água e localização de centros em regiões mais frias.
O grande ponto não é interromper o avanço da tecnologia, mas torná-lo mais sustentável.
O lado invisível da revolução digital
A inteligência artificial está transformando o mundo em uma velocidade impressionante. Mas, como toda grande inovação, ela traz desafios que nem sempre aparecem na superfície.
Cada texto gerado, cada imagem criada e cada pergunta respondida depende de uma infraestrutura física enorme, que consome energia, recursos naturais e água.
E talvez a grande reflexão seja esta: a tecnologia que parece imaterial, na verdade, tem um peso muito concreto no planeta.
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