Por que e como os vietnamitas pintavam os dentes de preto?
Imagine encontrar alguém com um sorriso perfeitamente alinhado… mas completamente preto. Para os padrões atuais, isso poderia parecer estranho, até assustador. Mas durante séculos, em várias partes do mundo, dentes escuros não eram sinal de descuido. Pelo contrário. Representavam beleza, maturidade, status e identidade cultural.
No Vietnã, essa tradição foi levada a um nível impressionante de sofisticação. E um novo estudo arqueológico acaba de revelar detalhes surpreendentes sobre como e por que os antigos vietnamitas transformavam seus sorrisos em um tom negro profundo e duradouro.

Um costume que atravessou milênios
Relatos antigos da China já descreviam terras além-mar onde as pessoas tinham dentes pretos. Alguns textos chamavam a região de “Reino dos Dentes Pretos”, uma referência que hoje é associada ao território do atual Vietnã.
A prática, conhecida como nhuộm răng đen, não era exclusiva do país. O escurecimento dos dentes também apareceu em culturas da Ásia, da Oceania, da África e até das Américas. No entanto, a técnica vietnamita se destacou pela qualidade do resultado e pela complexidade do processo.
Mais do que uma questão estética, os dentes pretos carregavam significados sociais e simbólicos.
Em muitos contextos, eles indicavam:
Transição da juventude para a vida adulta
Elegância e beleza feminina
Distinção entre grupos étnicos
Diferença entre humanos e espíritos ou seres sobrenaturais
Posição social ou estado civil
Em várias culturas, o sorriso preto não era um defeito, mas um sinal de identidade, maturidade e pertencimento.

Beleza, status e identidade
Para muitas mulheres vietnamitas, escurecer os dentes era um rito de passagem. O procedimento marcava a entrada na vida adulta e era visto como um atributo de elegância.
Dentes brancos, curiosamente, podiam ser associados à imaturidade ou até a características consideradas menos humanas. Em alguns registros históricos, o contraste entre dentes claros e escuros servia para diferenciar estrangeiros da população local.
Há também registros históricos na Ásia que mostram como a cor dos dentes podia indicar posição social ou estado civil. Em alguns casos, mulheres casadas mantinham os dentes escurecidos, enquanto viúvas ou religiosas retornavam à aparência natural.
A ciência revelou o segredo da técnica
Durante muito tempo, acreditava-se que o escurecimento era resultado apenas do consumo de noz de bétele, uma semente estimulante que mancha os dentes com tons escuros.
Mas um estudo recente, publicado na revista Archaeological and Anthropological Sciences, analisou crânios com até 2 mil anos encontrados no sítio arqueológico de Dong Xa, no Vietnã. O resultado trouxe uma descoberta importante: a coloração não era apenas resultado da mastigação.
Os pesquisadores identificaram a presença de ferro e enxofre nos dentes, indicando o uso de pigmentos artificiais à base de sais de ferro.
Para confirmar a hipótese, cientistas reproduziram uma tinta metalogálica semelhante e aplicaram em dentes modernos. Os padrões químicos foram praticamente idênticos aos encontrados nos restos arqueológicos.
Como era feito o processo?
A técnica vietnamita exigia paciência e habilidade. O processo acontecia em etapas e podia levar semanas.
Primeiro, o esmalte dos dentes era limpo e levemente raspado ou tratado com substâncias ácidas para facilitar a fixação da tinta. Em seguida, começava a preparação dos pigmentos.
Os ingredientes incluíam:
Plantas ricas em taninos
Ferro oxidado ou utensílios de ferro
Compostos com enxofre
Misturas deixadas em fermentação por dias
O primeiro pigmento, de tom avermelhado, era aplicado e deixado agir durante a noite. Depois, uma segunda camada mais escura era preparada e aplicada novamente.
Por fim, os dentes eram polidos com fuligem ou alcatrão vegetal até atingir um preto intenso e brilhante.
O resultado era impressionante.
Em muitos casos, a coloração podia durar a vida inteira, exigindo apenas pequenos retoques a cada dois ou três anos.

Mais do que estética: uma tecnologia cultural
Os achados arqueológicos mostram que essa prática estava ligada ao avanço tecnológico da Idade do Ferro, período em que o uso de metais se tornou mais comum.
Mas o mais interessante é perceber como a técnica combinava conhecimento químico, tradição cultural e identidade social.
Aquilo que hoje parece estranho já foi, em outra época, um símbolo de beleza, ciência e pertencimento.
O que essa tradição nos ensina
Ao olhar para o passado, fica claro que os padrões de beleza não são universais nem permanentes. O que uma cultura considera atraente ou desejável pode parecer incomum para outra.
A história dos dentes pretos no Vietnã revela algo maior: a estética humana é profundamente moldada pela cultura, pela identidade e pelo significado social.
E talvez essa seja a maior curiosidade de todas.
Porque, no fim das contas, o conceito de beleza nunca esteve apenas na aparência.
Ele sempre esteve na história por trás dela.
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