A "guerra da palha"; pamonha x cigarro em Goiás
Ela não passa no jornal das oito, não derruba bolsa de valores e não aparece em discursos oficiais. Ainda assim, está acontecendo agora, silenciosa, no coração de Goiás. Uma guerra estranha, quase invisível, mas capaz de mexer com hábitos antigos, sabores afetivos e até com o cheiro da feira logo cedo. O conflito não envolve petróleo, água ou terras raras. Envolve palha de milho.
De um lado, a pamonha. Do outro, o cigarro de palha. No meio do caminho, o Ceasa, esvaziado como se tivesse sido varrido por um furacão feito de espigas.

Quando a pamonha aparece sem palha
O alerta surgiu de forma simples, quase simbólica. Uma pamonha servida dentro de um saquinho plástico. Sem palha. Um detalhe que parece pequeno, mas carrega um aviso enorme. A palha não é só embalagem. Ela é identidade, é aroma, é memória. Sem ela, a pamonha até existe, mas perde algo essencial.
Quando a pamonha perde a palha, não é só a embalagem que some. É parte da tradição que escorre junto.
A cena pode parecer exagero, mas nasce de uma conta bem real. Cada espiga de milho vem com cerca de quatro palhas. Nem todas servem para enrolar pamonha. Algumas rasgam, outras são curtas demais, outras não aguentam o peso da massa. Quando o milho vem mais granado, mais generoso, sobra recheio e falta palha.
Resultado: a palha deixa de ser sobra e vira insumo valioso.

A palha que virou ouro
Durante muito tempo, a palha de milho foi tratada como algo que vinha “de graça” junto com a espiga. Hoje, isso ficou no passado. A palha tem preço, dono, destino e até negociação informal. Já há relatos de valores que chegam a seis reais o quilo, algo impensável até pouco tempo atrás.
Segundo denúncias feitas de forma bem-humorada, mas cheias de fundo de verdade, a indústria do cigarro de palha chegou primeiro. Comprou grandes volumes, limpou o estoque e deixou pamonharias olhando para o milho nu, sem roupa para sair.
É nesse cenário que nasce o que muitos já chamam, sem ironia, de a Guerra da Palha.

Pamonha x cigarro: muito além do mercado
De um lado está o cigarro de palha, tradicional, fumegante, que exige palhas secas, inteiras e resistentes. Do outro, a pamonha, patrimônio afetivo do Cerrado, que depende da mesma palha para existir do jeito que sempre existiu: quente, cheirosa, amarrada com barbante, aberta com cuidado.
Essa não é apenas uma disputa comercial. É um choque de usos, símbolos e hábitos. A mesma palha pode virar fumaça ou virar almoço de domingo. Pode alimentar um vício ou preservar uma lembrança de infância na casa da avó.
Uma palha pode virar cinza ou virar memória. A escolha diz muito sobre o que uma cultura valoriza.

O futuro da pamonha sem palha
Do ponto de vista técnico, soluções existem. Dá para fazer pamonha no copo, no pote, no saquinho, selada a vácuo, padronizada e eficiente. Mas tradição não se mede só por eficiência. Ela vive de gestos, cheiros e formas.
A ideia de uma pamonha sem palha não causa estranhamento pela falta de praticidade, mas pela quebra simbólica. É como tirar o papel do pastel ou a folha da pamonha doce. Funciona, mas não é a mesma coisa.
Já imaginou explicar para alguém de fora que a pamonha perdeu a palha porque o cigarro ganhou a guerra?

Um conflito pequeno, com impacto grande
Enquanto o milho cresce tranquilo na roça, alheio à confusão que provoca, a palha virou campo de batalha. Pequena, leve, quase invisível, mas agora disputada como recurso estratégico. Como toda boa guerra absurda
, ela começa silenciosa, parece exagero… até que muda o prato.
Em Goiás, a guerra da palha não acontece nos livros de história, mas nas feiras, nas pamonharias e nas conversas atravessadas de humor e preocupação. Porque quando a tradição precisa se adaptar demais, é sinal de que algo importante está em risco.
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